72% das empresas brasileiras ainda estão no início da adoção de IA, e marketing lidera o uso oficial
Pesquisa da Abiacom mostra que a maioria das empresas está em estágio inicial ou experimental, mas marketing e atendimento ao cliente concentram o uso aprovado de IA. Quase metade dos profissionais usa ferramentas sem autorização formal.
O que a pesquisa mostra
Levantamento da Abiacom, a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce, em parceria com a Brazil Panels e a escola de negócios Lideres.ai, traz um retrato sóbrio do estágio real da adoção de IA nas empresas brasileiras. O número de manchete: 72% das empresas estão em estágio iniciante ou experimental de adoção, longe da maturidade que o discurso de mercado costuma sugerir.
Apesar do estágio inicial generalizado, há concentração clara de onde a IA já trabalha de forma oficial: marketing e atendimento ao cliente lideram, com cerca de 24% de adoção formal cada. São as duas áreas em que o retorno aparece rápido, geração de conteúdo, variação de copy, triagem de mensagens, respostas a perguntas frequentes, e em que o custo de errar é baixo o suficiente para experimentar.
O dado mais incômodo: Shadow AI
O ponto que mais deveria preocupar gestores não é o atraso, é a informalidade. A pesquisa aponta:
- 47,4% dos profissionais usam ferramentas de IA sem aprovação oficial da empresa, o chamado Shadow AI.
- 59,1% das empresas não têm nenhuma diretriz formal de uso de IA.
- 70% dos respondentes enxergam potencial de automação por IA na própria rotina.
- Cerca de 33% veem a IA mais como oportunidade do que como risco.
A combinação é desconfortável: quase metade da força de trabalho já usa IA por conta própria, e a maioria das empresas não escreveu uma linha sequer sobre o que é permitido. Em marketing e atendimento, onde dados de cliente circulam, isso significa que conversas, leads e informações sensíveis podem estar passando por ferramentas que ninguém na empresa homologou.
"Estamos vivendo o maior movimento de transformação digital desde a popularização da internet." Claudio Vasques, CEO da Brazil Panels
O que muda para times de marketing e atendimento
O recado prático tem duas camadas. A primeira é de governança: se 47% da equipe já usa IA na surdina, proibir não funciona e ignorar é pior. A saída é homologar ferramentas, escrever diretrizes simples sobre que dados podem e não podem entrar em qual ferramenta, e tratar o uso como processo, não como exceção. Em atendimento via WhatsApp, isso é especialmente sensível, porque o histórico do cliente é dado pessoal sob a LGPD.
A segunda camada é competitiva. Se marketing e atendimento são as áreas que mais usam IA de forma oficial, são também as áreas em que a distância entre quem estruturou e quem improvisa vai aparecer primeiro. Estruturar aqui significa sair do uso avulso de chatbot genérico e adotar plataformas de atendimento com propósito definido e integração ao CRM. Vale ver a análise do Octadesk e a análise do Huggy para entender como ferramentas de atendimento brasileiras estão incorporando IA com governança.
Leitura crítica
O número de 72% no início da adoção convive com outra estatística que circulou bastante no mesmo período, a de que o Brasil estaria entre os líderes globais em uso de IA generativa. Não é contradição, é a diferença entre uso individual e adoção corporativa. Muita gente usa, poucas empresas organizaram. Essa lacuna é exatamente o Shadow AI medido pela pesquisa.
O risco da narrativa otimista é confundir entusiasmo com maturidade. Ter 70% da equipe vendo potencial de automação não é o mesmo que ter processo, métrica de retorno e diretriz de segurança. A dificuldade de medir ROI de IA, citada de forma recorrente em pesquisas do setor, segue como o calcanhar de Aquiles, porque o benefício costuma aparecer de forma difusa, em velocidade e produtividade, e não em uma linha clara de receita. Para o gestor de marketing, a lição é menos correr atrás da última ferramenta e mais transformar o uso difuso que já existe em algo medido, seguro e repetível.
Há ainda um detalhe que separa empresa madura de empresa improvisada: a homologação não precisa ser burocrática. Uma diretriz de uma página, definindo que ferramentas estão liberadas e que tipos de dado jamais podem ser colados nelas, já resolve a maior parte do problema de Shadow AI sem travar a experimentação que faz o marketing andar.