ABES/IDC: 40% das médias e grandes empresas do Brasil já usam agentes de IA no dia a dia, mas só 34% têm política de segurança para eles
Levantamento apresentado por ABES e IDC em 22 de junho de 2026 mostra que 40% das médias e grandes empresas brasileiras já operam agentes de IA integrados à rotina, e outras 33% planejam começar a implementação técnica nos próximos 12 meses, ou seja, mais de sete em cada dez empresas do país vão operar com agentes de IA em escala no curto prazo. O mesmo estudo mostra o outro lado: só 38% têm governança de dados sólida e apenas 34% têm política de segurança específica para essa tecnologia.
Quantas empresas brasileiras já usam agentes de IA na operação, segundo ABES e IDC?
40% das médias e grandes empresas do Brasil já usam agentes de IA integrados à rotina diária, e outras 33% têm planos formais de começar a implementação técnica nos próximos 12 meses. Somando os dois grupos, mais de sete em cada dez organizações do país vão operar com apoio de agentes de IA em escala no curto prazo. O dado é do "Estudo do Mercado Brasileiro de Software 2026: Panorama e Tendências", 21ª edição da pesquisa anual da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) em parceria com a IDC, apresentado em transmissão ao vivo em 18 de junho de 2026 e publicado em 22 de junho de 2026, no ano em que a ABES completa 40 anos.
O painel reuniu Jorge Sukarie, conselheiro da ABES, Fabio Martinelli, analista sênior da IDC América Latina, com moderação de Jamile Sabatini Marques, diretora de inovação, fomento e pesquisa da associação. O material público não detalha o tamanho exato da amostra nem a margem de erro usada para calcular os percentuais de adoção de agentes de IA, ainda que o estudo como um todo seja descrito como um mapeamento censitário do setor, com mais de 41.600 empresas de software e serviços de TI identificadas no país. Quem quiser a ficha metodológica completa precisa baixar o relatório executivo direto no site da ABES.
Onde está o mercado de software no Brasil hoje, e por que agentes de IA importam nesse quadro?
O mercado brasileiro de tecnologia da informação soma US$ 67,8 bilhões em investimento, o que coloca o país na 10ª posição do ranking mundial (9ª ao somar telecomunicações, chegando a US$ 97 bilhões). Dentro desse total, 32% do orçamento já vai para software, US$ 21,7 bilhões, fatia que cresceu na comparação com os 48% historicamente concentrados em hardware. É dentro dessa fatia de software que agentes de IA generativa deixaram de ser projeto de teste e viraram prioridade de investimento segundo o estudo.
- 40% das médias e grandes empresas já usam agentes de IA integrados à operação diária.
- 33% planejam iniciar implementação técnica nos próximos 12 meses.
- 57% dizem ter objetivos de negócio claros e bem definidos para o uso de IA.
- 38% têm estrutura sólida de governança de dados.
- 34% têm arquitetura e política de segurança específica voltada para agentes de IA.
É esse conjunto de números que o próprio estudo chama de descompasso estratégico: a ambição de negócio (57% com objetivo claro) está bem à frente da base de governança (38%) e de segurança (34%) que sustentaria esse uso com segurança.
"[Há] episódios recentes no mercado corporativo global em que agentes de IA autônomos, dotados de privilégios de acesso de alto nível a sistemas corporativos internos, acabaram apagando bases de dados centrais de empresas inteiras e, na sequência, também os respectivos backups automáticos, ao tentar corrigir, de forma autônoma e equivocada, pequenos erros de sistema." Fabio Martinelli, analista sênior da IDC América Latina, segundo relato da ABES sobre o evento
O que muda para quem avalia colocar um agente de IA no funil comercial?
O alerta de Martinelli não é sobre vendas especificamente, mas o raciocínio se aplica direto a squads comerciais avaliando dar a um agente de IA acesso de escrita ao CRM, à agenda ou ao sistema de faturamento: a mesma pressa que gera adoção rápida (73% da base do estudo entre quem já usa e quem vai usar em 12 meses) é a que deixa a arquitetura de segurança para trás. Os autores do estudo também apontam a dificuldade de medir o retorno sobre investimento (ROI) em projetos complexos de IA generativa, a complexidade de integrar sistemas legados on-premises e a escassez de mão de obra qualificada como as três barreiras físicas mais citadas pelas empresas brasileiras. O tema conecta com o investimento em agentes de IA já projetado pela IDC para o Brasil em 2026 e com o cuidado prático descrito no guia de como escolher um CRM para WhatsApp, ponto em que a maior parte dos dados sensíveis do funil comercial fica concentrada.
Leitura crítica
Há dois conflitos de interesse a declarar. A ABES é uma associação de empresas de software, muitas delas fornecedoras exatamente do tipo de tecnologia que o estudo descreve em expansão, e tem interesse institucional em mostrar o setor em trajetória de crescimento saudável. A IDC é uma consultoria de mercado que vende dados e assessoria para os mesmos fornecedores de tecnologia cujo desempenho está sendo medido. Isso não invalida os números, que vêm de um mapeamento com histórico de 21 edições e adotado como referência de mercado, mas explica por que o estudo é otimista na moldura (avanço, maturidade, liderança regional) mesmo apontando um problema real de governança.
O ponto mais frágil da divulgação pública é justamente a falta de ficha técnica detalhada para os percentuais de adoção de agentes de IA: não há tamanho de amostra, margem de erro nem explicação de como "uso integrado à operação diária" foi definido para o entrevistado responder. O episódio de agente apagando banco de dados e backup, citado por Martinelli, também aparece sem nome de empresa nem link de verificação, o que impede confirmar o caso específico, ainda que o padrão descrito (agente com permissão de escrita tentando "corrigir" um erro e piorando o estrago) seja consistente com relatos públicos de incidentes de IA agêntica ocorridos em 2025.