Gartner projeta 10 agentes de IA por vendedor em 2028 e alerta: menos de 40% dos vendedores vão dizer que ganharam produtividade
Novo alerta da consultoria diz que a área comercial caminha para um problema de excesso de agentes, e não de falta. Em pesquisa com 210 CSOs feita entre janeiro e fevereiro de 2026, 60% afirmam que a meta de receita depende de fatores fora do controle deles.
O que aconteceu
Até 2028, os agentes de inteligência artificial vão superar em 10 vezes o número de vendedores dentro das áreas comerciais, mas menos de 40% dos vendedores vão dizer que esses agentes melhoraram a própria produtividade. A projeção é da Gartner, divulgada em 28 de julho de 2026, e vem embrulhada num aviso pouco confortável para quem está montando orçamento de tecnologia comercial: o risco à frente não é ter poucos agentes, é ter agentes demais sem sistema que os sustente.
A consultoria batizou o problema de "agent sprawl", algo como espalhamento descontrolado de agentes: mais atividade digital acontecendo, sem melhora correspondente no impacto do vendedor.
"Sem a fundação de dados correta, integração de fluxo de trabalho e experiência do vendedor, os CSOs correm o risco de criar espalhamento de agentes, com mais atividade digital, mas pouca melhora no impacto do vendedor." Dan Gottlieb, VP Analyst da prática de Vendas da Gartner (tradução do comunicado original em inglês)
O paradoxo da produtividade em vendas
O pano de fundo do alerta é uma pesquisa da própria Gartner com 210 CSOs e executivos seniores de vendas, feita entre janeiro e fevereiro de 2026. Nela, 60% dos líderes dizem que o número de receita pelo qual respondem é determinado, em grande parte, por elementos fora do controle deles.
É um dado revelador de desalinhamento: investe-se em gente, ferramenta e processo, e o retorno percebido segue teimosamente plano. A consultoria chama isso de paradoxo da produtividade em vendas, e argumenta que jogar agentes de IA em cima de uma operação nesse estado só aumenta o volume de coisas acontecendo, não o resultado.
A Gartner também projeta uma bifurcação: até 2028, os CSOs que reformarem dados, automação e experiência de uso terão cinco vezes mais chance de obter retorno sobre o investimento em IA do que aqueles que optarem por soluções rápidas.
O que muda para o time comercial
Traduzindo a razão de 10 para 1 em números de operação brasileira: um time comercial com 12 vendedores e 4 SDRs caminharia para conviver com cerca de 160 agentes ativos em 2028. Agente que enriquece cadastro, agente que resume ligação, agente que redige follow-up, agente que faz o primeiro toque no WhatsApp, agente que atualiza o CRM, agente que monta a proposta. E, pela projeção da Gartner, mais de 6 em cada 10 desses vendedores diriam que nada disso melhorou o dia deles.
As três frentes que a consultoria recomenda são bem concretas:
- Camada de contexto centralizada: conectar dados corporativos, sistemas e o julgamento do vendedor, para que o agente produza saída específica da empresa e não texto genérico.
- Orquestrar comportamentos que funcionam: usar IA para tirar trabalho administrativo do vendedor, escalar a prática do time de alto desempenho e dar ao gestor insumo real para coaching.
- Medir capacidade, não só tempo economizado: parar de justificar IA por "economizei 4 horas por semana" e passar a medir quanta capacidade de venda foi criada.
Esse último ponto é o mais acionável para a média empresa brasileira. Economia de tempo é a métrica preferida dos pilotos porque é fácil de coletar e impossível de contestar, mas ela não aparece em lugar nenhum do DRE. Se o SDR economizou 4 horas por semana e o número de reuniões qualificadas por mês não mudou, o piloto não gerou capacidade, gerou folga. A conta que importa é outra: quantas oportunidades a mais entraram no funil, com o mesmo headcount, depois do agente.
Para quem está no começo dessa discussão, vale entender antes o que de fato caracteriza um agente de IA para WhatsApp, já que no Brasil o primeiro toque comercial acontece majoritariamente nesse canal, e comparar o que o mercado oferece hoje no comparativo de sistemas de IA para vendas.
Leitura crítica
Duas ressalvas honestas. A primeira: 210 respondentes de nível CSO e executivo sênior é uma amostra pequena e concentrada no topo, o que capta a percepção de quem aprova orçamento, não a de quem opera. A percepção de "menos de 40% dos vendedores" é projeção da consultoria, não medição de campo com vendedores.
A segunda: a Gartner é parte interessada. Ela vende pesquisa e assessoria sobre exatamente esse tema, e o comunicado termina apontando o cliente para um relatório pago. Isso não desqualifica o diagnóstico, mas explica por que a receita proposta é sempre transformação ampla, e nunca "faça um piloto pequeno e veja se dá certo".
Dito isso, a tese central resiste ao ceticismo e conversa com o que se vê no mercado brasileiro. A frase mais útil do comunicado é a de que o agente é tão eficaz quanto o sistema em que ele opera: se o sistema é fragmentado, o agente escala a fragmentação. Quem tem CRM desatualizado, histórico de atendimento fora do CRM e processo comercial que só existe na cabeça do gerente vai comprar IA e receber, em troca, uma versão mais rápida da própria bagunça.
A pergunta que a Gartner sugere que o gestor faça antes de contratar mais um agente é boa e barata de aplicar: onde esse agente remove atrito, melhora a qualidade da decisão e cria capacidade? Se a resposta for "ele automatiza uma tarefa que ninguém sente falta", o projeto vira custo recorrente disfarçado de inovação.