BCG: 74% dos profissionais de linha de frente já usam IA no trabalho, mas só 30% integraram agentes ao fluxo real
A quarta edição da pesquisa AI at Work, da BCG, ouviu 11.749 profissionais em 14 mercados e encontrou um descompasso central: o uso regular de IA saltou para 74%, mas apenas 30% dizem que agentes de IA já estão integrados ao fluxo de trabalho, e 66% de quem usa IA com frequência não recebe nenhuma orientação sobre o que fazer com o tempo que a ferramenta economiza.
Qual é o real descompasso entre usar IA e integrar IA ao trabalho, segundo a BCG?
É a distância entre 74% e 30%. Na quarta edição da pesquisa AI at Work, divulgada pela Boston Consulting Group (BCG) em 3 de junho de 2026, 74% dos profissionais de linha de frente entrevistados dizem usar IA regularmente no trabalho, um salto de mais de 20 pontos percentuais em relação aos dois anos anteriores. Mas apenas 30% afirmam que agentes de IA já estão de fato integrados aos fluxos de trabalho da empresa, ainda que esse número tenha mais que dobrado frente aos 13% registrados na edição anterior do estudo.
O levantamento ouviu 11.749 trabalhadores em 14 mercados, incluindo o Brasil, além de Índia, Oriente Médio, África do Sul, Estados Unidos, França e Itália, entre outros. É a base mais numerosa das quatro edições da pesquisa da BCG sobre o tema. A empresa não publicou, no material disponível ao público, o período exato de coleta de campo nem margem de erro, o que limita uma leitura mais fina de precisão estatística. O relatório completo, com metodologia detalhada, fica disponível apenas para download restrito.
Onde está o gargalo, se a adoção já é alta?
No que a própria BCG chama de "gestão", não de tecnologia. Entre quem usa IA com frequência, 42% dizem economizar pelo menos um dia inteiro de trabalho por semana, ganho puxado por áreas como marketing, TI e recursos humanos. O problema é o que acontece depois: 66% desses profissionais relatam receber pouca ou nenhuma orientação da liderança sobre como reaproveitar esse tempo.
- 74% usam IA regularmente no trabalho de linha de frente, alta de mais de 20 pontos percentuais em dois anos.
- 42% dos usuários frequentes economizam ao menos um dia útil por semana.
- 66% não recebem direcionamento sobre o que fazer com o tempo economizado.
- 30% dizem que agentes de IA já estão integrados a processos reais, contra 13% um ano antes.
- 61% acreditam que agentes poderão fazer ao menos metade do próprio trabalho em três anos, mas 52% ainda entendem pouco o que um agente de IA realmente faz.
A pesquisa também mede o efeito de ter, ou não, uma estratégia clara de IA: segundo a BCG, times com direcionamento explícito sobre como usar a IA no dia a dia registram ganhos de desempenho muito superiores aos de equipes que só receberam a ferramenta, sem orientação sobre processo.
"O cenário atual exige uma revolução gerencial, não apenas tecnológica. Todo mundo fala em IA substituindo trabalho, mas o que está em jogo de verdade é repensar o valor humano dentro do processo, e esse é o papel dos líderes." Vinciane Beauchene, sócia e diretora administrativa da BCG, coautora do estudo
O outro coautor do relatório, Sylvain Duranton, líder global da BCG X, resume o efeito colateral de deixar a integração para depois: segundo ele, a novidade e o desafio cognitivo da IA geram entusiasmo nos primeiros meses de uso, mas essa "lua de mel" se desfaz sem clareza estratégica, e as organizações que capturam mais valor de negócio são as mesmas em que o time relata mais satisfação no trabalho.
O que isso muda para o Brasil e para times comerciais?
O Brasil aparece entre os mercados que puxam a adoção para cima. A BCG classifica Índia, Oriente Médio, Brasil e África do Sul como mercados do "Sul Global" com uso regular de IA por profissionais de linha de frente acima da média mundial, à frente de Estados Unidos, França e Itália. Para times de vendas e atendimento no Brasil, o recorte é relevante porque o país corre na frente na adoção individual da ferramenta, o mesmo ponto em que o estudo diz que o ganho real trava: uso alto sem processo redesenhado em torno dele.
Para SDR e pré-venda, o achado prático é o dos 30% de integração real de agentes. Ter um assistente de IA que sugere um script de qualificação é diferente de ter um agente que executa parte da rotina, como triagem de lead ou agendamento, dentro do CRM. É essa segunda camada, a de agente com ação no fluxo, que o estudo mostra ainda minoritária mesmo em times que já usam IA todo dia. O tema aparece também no investimento em agentes de IA projetado para o Brasil pela IDC e é parte do debate mais amplo sobre IA de conversa aplicada a atendimento e vendas.
Leitura crítica
A pesquisa tem uma base grande (11.749 respondentes, 14 mercados) e vem assinada por uma consultoria com reputação técnica consolidada, o que pesa a favor da confiabilidade dos números. Mas há um ponto de atenção que o texto não esconde e o leitor não deve ignorar: a BCG é uma consultoria de gestão que vende, entre outros serviços, exatamente o tipo de trabalho que o próprio estudo recomenda, redesenho de processo e estratégia de adoção de IA. Um relatório que conclui "a tecnologia não é o problema, a gestão é" tem interesse comercial direto em fazer essa leitura circular.
Também vale registrar o que falta na divulgação pública: a BCG não informa o período exato de coleta de campo nem margem de erro, dois itens que costumam constar em pesquisas dessa escala. Sem esses dados, a comparação ano a ano (13% para 30% na integração de agentes, por exemplo) precisa ser lida como direção de tendência, não como número de precisão fechada. Isso não invalida o achado central, que é consistente com o que outros institutos vêm registrando em formatos distintos: a curva de adoção de ferramenta sobe mais rápido do que a curva de mudança de processo.